segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ligia, ficou longo mas o tema é interessante

Balada Do Louco
Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz
......................
Em 18 de maio comemora-se, no Brasil, o Dia da Luta Antimanicomial, que propõe tratar a pessoa com transtorno mental de forma humanizada, resgatando a participação familiar e comunitária e substituindo o modelo baseado na hospitalização perene.

“Não é que o paciente deixe de ser hospitalizado quando se faz necessário (como quando há uma crise, uma desorganização psíquica, por exemplo), mas, com essa novo modelo, a hospitalização passa a ser um item, uma parte do tratamento, e não uma sentença de cárcere para vida toda do indivíduo”, explica a psicóloga Cristiane Valli, professora extensionista do curso de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).

“Antes da reforma psiquiátrica ser adotada em Trieste, na Itália, por Franco Basaglia (1924-1980) nos anos de 1960, e posteriormente ser pulverizada pelo mundo, incluindo o Brasil, a pessoa com transtorno mental era confinada em manicômios, excluído da família e da sociedade e comumente padecia de maus tratos”, completa a especialista.

No Brasil, a data foi escolhida porque em 18 de maio de 1987 ocorreu o Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, em Bauru - movimento que resultou na Reforma Psiquiátrica brasileira, definida pela Lei 10216 de 2001 (Lei Paulo Delgado), que instituiu os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), onde os pacientes recebem tratamentos semi-intensivo (alguns dias por semana) ou nos casos mais severos, intensivos (todos os dias da semana), morando, entretanto, na maioria das vezes, junto com a família e convivendo em sociedade.

Para que a família, no entanto, possa estar preparada para acolhê-los, proporcionando uma convivência afetiva e suportiva a todos os seus membros, a PUC-Campinas desenvolveu um projeto de extensão a fim de preparar as famílias, intitulado “A família e a pessoa com transtorno mental: o resgate da participação familiar e comunitária”.

O projeto de extensão está sendo executado no Caps Sul - Antônio da Costa Santos (popularmente conhecido como Caps Toninho) através de uma parceria entre o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira e a Universidade. “Esse convênio foi superbem-vindo, veio a calhar”, afirmou a Terapeuta Ocupacional (T.O.) Rosana Romanelli, coordenadora do Caps Sul.

O trabalho é realizado por meio de oficinas, com a participação dos familiares e dos pacientes, e tudo feito pelo Serviço Único de Saúde (SUS). Atualmente, o Caps Sul dispõe de 370 usuários, mas sua capacidade é de 300.

Para a estudante de psicologia da PUC, Maria Cristina Lopes Mesquita, bolsita de extensão e uma das graduandas do projeto, que é coordenado pela professora Cristiane, o programa de extensão “é uma oportunidade de aplicar o conhecimento teórico na prática, auxiliando as pessoas (que não teriam como pagar por um tratamento particular)”.

De mesma opinião é a bolsista Flávia Corregio da Costa: “ao mesmo tempo que ele auxilia a família dos usuários e o tratamento deles, (o projeto de extensão) nos auxilia na nossa formação e na futura carreira profissional”. Para Flávia, a oportunidade “é um diferencial muito grande na carreira”.

O trabalho começou em abril e abrange, por ora, 40 usuários com seus respectivos familiares e/ ou responsáveis, em quatro oficinas.
...........................................................................................................................
Folha de S. Paulo, seção: Opinião, 12/04/2009

FONTE: Associação Psiquiátrica de Brasília

A campanha contra a internação de doentes mentais foi inspirada por um médico italiano de Bolonha. Lá resultou num desastre e, mesmo assim, insistiu-se em repeti-la aqui e o resultado foi exatamente o mesmo.Isso começou por causa do uso intensivo de drogas a partir dos anos 70. Veio no bojo de uma rebelião contra a ordem social, que era definida como sinônimo de cerceamento da liberdade individual, repressão "burguesa" para defender os valores do capitalismo.A classe média, em geral, sempre aberta a ideias "avançadas" ou "libertárias", quase nunca se detém para examinar as questões, pesar os argumentos, confrontá-los com a realidade. Não, adere sem refletir.Havia, naquela época, um deputado petista que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que "as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles". E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo: "Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que eu".Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra "manicômio", já então fora de uso e que por si só carrega conotações negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais. Digo isso porque estive em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas em nenhum deles havia cárceres ou "solitárias" para segregar o "doente furioso". Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num inferno.Até descobrirem os remédios psiquiátricos, que controlam a ansiedade e evitam o delírio, médicos e enfermeiros, de fato, não sabiam como lidar com um doente mental em surto, fora de controle. Por isso o metiam em camisas de força ou o punham numa cela com grades até que se acalmasse. Outro procedimento era o choque elétrico, que surtia o efeito imediato de interromper o surto esquizofrênico, mas com consequências imprevisíveis para sua integridade mental.Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos. Já os remédios neuroléticos não apresentam qualquer inconveniente e, aplicados na dosagem certa, possibilitam ao doente manter-se em estado normal. Graças a essa medicação, as clínicas psiquiátricas perderam o caráter carcerário para se tornarem semelhantes a clínicas de repouso. A maioria das clínicas psiquiátricas particulares de hoje tem salas de jogos, de cinema, teatro, piscina e campo de esportes. Já os hospitais públicos, até bem pouco, se não dispunham do mesmo conforto, também ofereciam ao internado divertimento e lazer, além de ateliês para pintar, desenhar ou ocupar-se com trabalhos manuais.Com os remédios à base de amplictil, como Haldol, o paciente não necessita de internações prolongadas. Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo.Pois bem, aquela campanha, que visava salvar os doentes de "repressão burguesa", resultou numa lei que praticamente acabou com os hospitais psiquiátricos, mantidos pelo governo. Em seu lugar, instituiu-se o tratamento ambulatorial (hospital-dia), que só resulta para os casos menos graves, enquanto os mais graves, que necessitam de internação, não têm quem os atenda. As famílias de posses continuam a por seus doentes em clínicas particulares, enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam nas ruas como mendigos, dormindo sob viadutos.É hora de revogar essa lei idiota que provocou tamanho desastre.
------Dr. Antônio Geraldo da Silva - Presidente da APBr, comenta o artigo:
Respeitado internacionalmente, o escritor, filósofo e poeta, Ferreira Gullar escreveu um artigo sobre a realidade brasileira na assistência aos doentes mentais e seus familiares. O texto, publicado pela Folha de São Paulo no dia 12 de abril, pode ser considerado um dos mais importantes já publicados desde a promulgação da lei 10.216.Talvez por ser um familiar e não um médico e/ou político, Gullar tenha se referido à lei 10.216 como sendo a Lei do Deputado Paulo Delgado. Fato que não procede.O Projeto de Lei do Deputado foi rejeitado no Senado com 23 votos contra e somente 04 a favor. Sendo assim, não existe nenhuma “lei Paulo Delgado”.O que existe é um mesmo grupo estar à frente da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde há mais de 20 anos, sendo que na última década o Coordenador é o irmão do citado deputado, que vêm conseguindo publicar portarias que burlam a Lei 10.216.A lei 10.216 é totalmente adequada às necessidades dos doentes mentais, seus familiares e dos profissionais comprometidos, mas está sendo distorcida em detrimento de uma proposta errada e rejeitada, que desde sua concepção estava fadada a levar nosso sistema público de assistência ao doente mental ao caos que estamos enfrentando hoje.Infelizmente dos 120 mil leitos públicos que existiam, hoje temos apenas cerca de 38 mil. Em compensação, os leitos privados aumentaram consideravelmente – chegando a mais do dobro do número anterior.Uma triste realidade. A desassistência à saúde mental reina no país.

Nenhum comentário:

Postar um comentário