Impasses de
Slavoj Zizek, o ‘Elvis da filosofia’
por Luciano Trigo |
Quando um filósofo entra na moda e vira
celebridade, é necessário separar com cautela aquilo que ele efetivamente
escreve de sua imagem pública, da máscara pop que ele assume e que geralmente
dispensa a compreensão, ou mesmo a leitura, de seus textos. O esloveno Slavoj
Zizek é um caso típico: autor de uma obra complexa, ele se sente à vontade sob
os holofotes, freqüentatalk shows e gosta de dar declarações controversas sobre os
mais variados assuntos, de Lacan ao cinema hollywoodiano, de Osama a Obama, da
ecologia ao racismo e à religião. Um episódio ilustra bem sua vocação para a
polêmica: em 2010 Zizek escreveu para a Cahiers Du Cinema um texto criticando
Avatar; e, numa entrevista para a edição seguinte da revista, confessou não ter
assistido ao filme.
Zizek veio ao Brasil para lançar dois livros, Em
defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia, depois como farsa, ambos editados pela Boitempo
editorial. Nessas obras, é comum encontrar numa mesma página os nomes de
Foucault e Mel Gibson, Kafka e Hitchcock, Hegel e Jennifer Aniston. Pós-moderno
na aparência, esse procedimento de diluir as fronteiras entre a alta cultura e
o universo pop reforça a imagem de Zizek como “o Elvis da teoria cultural” e
ajuda a engrossar a sua tribo de seguidores. Mas Zizek está longe de ser um
pensador pós-moderno. Ao contrário, ele rejeita categoricamente os alicerces da
atual estrutura social e política do Ocidente e problematiza o consenso
construído em torno da universalização da democracia liberal e capitalista, que
resultou numa sociedade decadente e anêmica. Ele afirma que é preciso dar um
passo atrás na História: recuperar as ideologias, o conceito de revolução e o
radicalismo que moveram os grandes (e sangrentos) projetos políticos do século
passado – e que foram descartados como herança totalitária.
Num mundo em que uma piada de mau gosto de Lars Von Trier desperta
reações indignadas, Zizek diz seriamente que o problema de Hitler, Stalin e Mao
foi não terem sido suficientemente radicais, incompetentes para implantar as
mudanças sociais profundas com que sonhavam. Escreve também que precisamos
reinventar o terror evolucionário, e que o inimigo hoje não é o Capital ou o
Império, mas a democracia. Mesmo que afirmações desse tipo não devam ser
deslocadas de seu contexto, no mínimo dão margem a controvérsias.
Mao, um dos heróis de Zizek, dizia que a revolução não seria agradável,
e que talvez metade da população da China precisasse morrer. O filósofo
esloveno parece nostálgico das verdades absolutas, de uma época em que uma
convicção podia levar povos inteiros à morte. A posição do pensador em relação
à violência não fica clara, e essa ambigüidade endossa críticas como a que fez
Hamid Dabashi na época das turbulências no Irã: “Para gente como Zizek,
distúrbios sociais no que eles chamam de Terceiro Mundo são uma questão de
entretenimento teórico”.
Zizek combate a redução da política à administração racional de
conflitos, critica o ideal de tolerância e exorta as esquerdas a serem mais
ambiciosas. Diz, com razão, que algo deve estar errado num mundo onde Bill
Gates é um grande herói, onde a ação política está circunscrita a manifestações
ecológicas frequentadas por dondocas, onde os filmes de 007 não têm sexo e onde
as relações humanas são regidas pela “economia do medo”. O mundo se acomodou, e
Zizek reage de forma inflamada a essa acomodação. Mas seu pensamento social e
político se reduz a um exercício intelectual estimulante e provocador, mas não
necessariamente convincente.
A Boitempo Editorial está lançando também versões
eletrônicas (ebooks) dos dois primeiros livros do filósofo publicados pela
editora no Brasil: Bem-vindo ao deserto do real!, coletânea de ensaios
sobre o pós-11 de setembro (que ganha ilustrações coloridas, exclusivas à
versão eletrônica), e Às portas da revolução: escritos de Lênin
de 1917, no qual
o autor analisa os escritos do líder revolucionário.
TRECHO DE ‘EM DEFESA DAS CAUSAS
PERDIDAS’
“Restam somente duas teorias que ainda indicam e
praticam essa noção engajada de verdade: o marxismo e a psicanálise. Ambas são
teorias de luta, não só teorias sobre a luta, mas teorias que estão, elas
mesmas, engajadas numa luta: sua história não consiste num acúmulo de
conhecimentos neutros, pois é marcada por cismas, heresias, expulsões. É por
isso que, em ambas, a relação entre teoria e prática é propriamente dialética;
em outras palavras, é de uma tensão irredutível: a teoria não é somente o
fundamento conceitual da prática, ela explica ao mesmo tempo por que a prática,
em última análise, está condenada ao fracasso – ou, como disse Freud de modo
conciso, a psicanálise só seria totalmente possível numa sociedade que não
precisasse mais dela. Em seu aspecto mais radical, a teoria é a teoria de uma
prática fracassada: “É por isso que as coisas deram errado…”. Costumamos
esquecer que os cinco grandes relatos clínicos de Freud são basicamente relatos
de um sucesso parcial e de um fracasso definitivo; da mesma forma, os maiores
relatos históricos marxistas de eventos revolucionários são descrições de
grandes fracassos (da Guerra dos Camponeses Alemães, dos jacobinos na Revolução
Francesa, da Comuna de Paris, da Revolução de Outubro, da Revolução Cultural
Chinesa…). Esse exame dos fracassos nos põe diante do problema da fidelidade:
como redimir o potencial emancipatório de tais fracassos evitando a dupla
armadilha do apego nostálgico ao passado e da acomodação demasiado escorregadia
às “novas circunstancias”.”
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