Balada Do Louco
Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz
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Em 18 de maio comemora-se, no Brasil, o Dia da Luta
Antimanicomial, que propõe tratar a pessoa com transtorno mental de forma
humanizada, resgatando a participação familiar e comunitária e
substituindo o modelo baseado na hospitalização perene.
“Não é que o paciente deixe de ser hospitalizado quando se faz necessário (como
quando há uma crise, uma desorganização psíquica, por exemplo), mas, com essa
novo modelo, a hospitalização passa a ser um item, uma parte do tratamento, e
não uma sentença de cárcere para vida toda do indivíduo”, explica a psicóloga
Cristiane Valli, professora extensionista do curso de psicologia da Pontifícia
Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).
“Antes da reforma psiquiátrica ser adotada em Trieste, na Itália,
por Franco Basaglia (1924-1980) nos anos de 1960, e
posteriormente ser pulverizada pelo mundo, incluindo o Brasil, a pessoa com
transtorno mental era confinada em manicômios, excluído da família e da
sociedade e comumente padecia de maus tratos”, completa a especialista.
No Brasil, a data foi escolhida porque em 18 de maio de 1987 ocorreu o Encontro
dos Trabalhadores da Saúde Mental, em Bauru - movimento que resultou
na Reforma Psiquiátrica brasileira, definida pela Lei 10216 de 2001 (Lei
Paulo Delgado), que instituiu os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), onde
os pacientes recebem tratamentos semi-intensivo (alguns dias por semana) ou nos
casos mais severos, intensivos (todos os dias da semana), morando, entretanto,
na maioria das vezes, junto com a família e convivendo em sociedade.
Para que a família, no entanto, possa estar preparada para acolhê-los,
proporcionando uma convivência afetiva e suportiva a todos os seus membros, a
PUC-Campinas desenvolveu um projeto de extensão a fim de preparar as famílias,
intitulado “A família e a pessoa com transtorno mental: o resgate da
participação familiar e comunitária”.
O projeto de extensão está sendo executado no Caps Sul - Antônio da Costa
Santos (popularmente conhecido como Caps Toninho) através de uma parceria entre
o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira e a Universidade. “Esse convênio foi
superbem-vindo, veio a calhar”, afirmou a Terapeuta Ocupacional (T.O.) Rosana
Romanelli, coordenadora do Caps Sul.
O trabalho é realizado por meio de oficinas, com a participação dos familiares
e dos pacientes, e tudo feito pelo Serviço Único de Saúde (SUS). Atualmente, o
Caps Sul dispõe de 370 usuários, mas sua capacidade é de 300.
Para a estudante de psicologia da PUC, Maria Cristina Lopes Mesquita, bolsita
de extensão e uma das graduandas do projeto, que é coordenado pela professora
Cristiane, o programa de extensão “é uma oportunidade de aplicar o conhecimento
teórico na prática, auxiliando as pessoas (que não teriam como pagar por um
tratamento particular)”.
De mesma opinião é a bolsista Flávia Corregio da Costa: “ao mesmo tempo que ele
auxilia a família dos usuários e o tratamento deles, (o projeto de extensão)
nos auxilia na nossa formação e na futura carreira profissional”. Para Flávia,
a oportunidade “é um diferencial muito grande na carreira”.
O trabalho começou em abril e abrange, por ora, 40 usuários com seus
respectivos familiares e/ ou responsáveis, em quatro oficinas.
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Folha de S. Paulo, seção: Opinião,
12/04/2009
FONTE: Associação Psiquiátrica de
Brasília
A campanha contra a internação de
doentes mentais foi inspirada por um médico italiano de Bolonha. Lá resultou
num desastre e, mesmo assim, insistiu-se em repeti-la aqui e o resultado foi
exatamente o mesmo.Isso começou por causa do uso intensivo de drogas a partir
dos anos 70. Veio no bojo de uma rebelião contra a ordem social, que era
definida como sinônimo de cerceamento da liberdade individual, repressão
"burguesa" para defender os valores do capitalismo.A classe média, em
geral, sempre aberta a ideias "avançadas" ou "libertárias",
quase nunca se detém para examinar as questões, pesar os argumentos,
confrontá-los com a realidade. Não, adere sem refletir.Havia, naquela época, um
deputado petista que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um
projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que "as
famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles". E eu,
que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo:
"Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas
esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina
o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a
família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que
eu".Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer:
funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do
problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da
palavra "manicômio", já então fora de uso e que por si só carrega conotações
negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais. Digo isso
porque estive em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas
em nenhum deles havia cárceres ou "solitárias" para segregar o
"doente furioso". Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar
a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num
inferno.Até descobrirem os remédios psiquiátricos, que controlam a ansiedade e
evitam o delírio, médicos e enfermeiros, de fato, não sabiam como lidar com um
doente mental em surto, fora de controle. Por isso o metiam em camisas de força
ou o punham numa cela com grades até que se acalmasse. Outro procedimento era o
choque elétrico, que surtia o efeito imediato de interromper o surto
esquizofrênico, mas com consequências imprevisíveis para sua integridade
mental.Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do
choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos. Já os remédios neuroléticos
não apresentam qualquer inconveniente e, aplicados na dosagem certa,
possibilitam ao doente manter-se em estado normal. Graças a essa medicação, as
clínicas psiquiátricas perderam o caráter carcerário para se tornarem
semelhantes a clínicas de repouso. A maioria das clínicas psiquiátricas
particulares de hoje tem salas de jogos, de cinema, teatro, piscina e campo de
esportes. Já os hospitais públicos, até bem pouco, se não dispunham do mesmo
conforto, também ofereciam ao internado divertimento e lazer, além de ateliês
para pintar, desenhar ou ocupar-se com trabalhos manuais.Com os remédios à base
de amplictil, como Haldol, o paciente não necessita de internações prolongadas.
Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos
motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma
ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos
poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar
para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples,
já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns
casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa
senão interná-lo.Pois bem, aquela campanha, que visava salvar os doentes de
"repressão burguesa", resultou numa lei que praticamente acabou com
os hospitais psiquiátricos, mantidos pelo governo. Em seu lugar, instituiu-se o
tratamento ambulatorial (hospital-dia), que só resulta para os casos menos
graves, enquanto os mais graves, que necessitam de internação, não têm quem os
atenda. As famílias de posses continuam a por seus doentes em clínicas
particulares, enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam
nas ruas como mendigos, dormindo sob viadutos.É hora de revogar essa lei idiota
que provocou tamanho desastre.
------Dr. Antônio Geraldo da Silva - Presidente da APBr, comenta o artigo:
Respeitado internacionalmente, o escritor, filósofo e poeta, Ferreira Gullar
escreveu um artigo sobre a realidade brasileira na assistência aos doentes
mentais e seus familiares. O texto, publicado pela Folha de São Paulo no dia 12
de abril, pode ser considerado um dos mais importantes já publicados desde a
promulgação da lei 10.216.Talvez por ser um familiar e não um médico e/ou
político, Gullar tenha se referido à lei 10.216 como sendo a Lei do Deputado
Paulo Delgado. Fato que não procede.O Projeto de Lei do Deputado foi rejeitado
no Senado com 23 votos contra e somente 04 a favor. Sendo assim, não existe
nenhuma “lei Paulo Delgado”.O que existe é um mesmo grupo estar à frente da
Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde há mais de 20 anos, sendo
que na última década o Coordenador é o irmão do citado deputado, que vêm
conseguindo publicar portarias que burlam a Lei 10.216.A lei 10.216 é totalmente
adequada às necessidades dos doentes mentais, seus familiares e dos
profissionais comprometidos, mas está sendo distorcida em detrimento de uma
proposta errada e rejeitada, que desde sua concepção estava fadada a levar
nosso sistema público de assistência ao doente mental ao caos que estamos
enfrentando hoje.Infelizmente dos 120 mil leitos públicos que existiam, hoje
temos apenas cerca de 38 mil. Em compensação, os leitos privados aumentaram
consideravelmente – chegando a mais do dobro do número anterior.Uma triste
realidade. A desassistência à saúde mental reina no país.