segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

proposta com figuras e um texto




O amor acaba
Por Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

ligia, ficou longo mas o tema é interessante

Balada Do Louco
Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz
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Em 18 de maio comemora-se, no Brasil, o Dia da Luta Antimanicomial, que propõe tratar a pessoa com transtorno mental de forma humanizada, resgatando a participação familiar e comunitária e substituindo o modelo baseado na hospitalização perene.

“Não é que o paciente deixe de ser hospitalizado quando se faz necessário (como quando há uma crise, uma desorganização psíquica, por exemplo), mas, com essa novo modelo, a hospitalização passa a ser um item, uma parte do tratamento, e não uma sentença de cárcere para vida toda do indivíduo”, explica a psicóloga Cristiane Valli, professora extensionista do curso de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).

“Antes da reforma psiquiátrica ser adotada em Trieste, na Itália, por Franco Basaglia (1924-1980) nos anos de 1960, e posteriormente ser pulverizada pelo mundo, incluindo o Brasil, a pessoa com transtorno mental era confinada em manicômios, excluído da família e da sociedade e comumente padecia de maus tratos”, completa a especialista.

No Brasil, a data foi escolhida porque em 18 de maio de 1987 ocorreu o Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, em Bauru - movimento que resultou na Reforma Psiquiátrica brasileira, definida pela Lei 10216 de 2001 (Lei Paulo Delgado), que instituiu os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), onde os pacientes recebem tratamentos semi-intensivo (alguns dias por semana) ou nos casos mais severos, intensivos (todos os dias da semana), morando, entretanto, na maioria das vezes, junto com a família e convivendo em sociedade.

Para que a família, no entanto, possa estar preparada para acolhê-los, proporcionando uma convivência afetiva e suportiva a todos os seus membros, a PUC-Campinas desenvolveu um projeto de extensão a fim de preparar as famílias, intitulado “A família e a pessoa com transtorno mental: o resgate da participação familiar e comunitária”.

O projeto de extensão está sendo executado no Caps Sul - Antônio da Costa Santos (popularmente conhecido como Caps Toninho) através de uma parceria entre o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira e a Universidade. “Esse convênio foi superbem-vindo, veio a calhar”, afirmou a Terapeuta Ocupacional (T.O.) Rosana Romanelli, coordenadora do Caps Sul.

O trabalho é realizado por meio de oficinas, com a participação dos familiares e dos pacientes, e tudo feito pelo Serviço Único de Saúde (SUS). Atualmente, o Caps Sul dispõe de 370 usuários, mas sua capacidade é de 300.

Para a estudante de psicologia da PUC, Maria Cristina Lopes Mesquita, bolsita de extensão e uma das graduandas do projeto, que é coordenado pela professora Cristiane, o programa de extensão “é uma oportunidade de aplicar o conhecimento teórico na prática, auxiliando as pessoas (que não teriam como pagar por um tratamento particular)”.

De mesma opinião é a bolsista Flávia Corregio da Costa: “ao mesmo tempo que ele auxilia a família dos usuários e o tratamento deles, (o projeto de extensão) nos auxilia na nossa formação e na futura carreira profissional”. Para Flávia, a oportunidade “é um diferencial muito grande na carreira”.

O trabalho começou em abril e abrange, por ora, 40 usuários com seus respectivos familiares e/ ou responsáveis, em quatro oficinas.
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Folha de S. Paulo, seção: Opinião, 12/04/2009

FONTE: Associação Psiquiátrica de Brasília

A campanha contra a internação de doentes mentais foi inspirada por um médico italiano de Bolonha. Lá resultou num desastre e, mesmo assim, insistiu-se em repeti-la aqui e o resultado foi exatamente o mesmo.Isso começou por causa do uso intensivo de drogas a partir dos anos 70. Veio no bojo de uma rebelião contra a ordem social, que era definida como sinônimo de cerceamento da liberdade individual, repressão "burguesa" para defender os valores do capitalismo.A classe média, em geral, sempre aberta a ideias "avançadas" ou "libertárias", quase nunca se detém para examinar as questões, pesar os argumentos, confrontá-los com a realidade. Não, adere sem refletir.Havia, naquela época, um deputado petista que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que "as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles". E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo: "Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que eu".Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra "manicômio", já então fora de uso e que por si só carrega conotações negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais. Digo isso porque estive em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas em nenhum deles havia cárceres ou "solitárias" para segregar o "doente furioso". Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num inferno.Até descobrirem os remédios psiquiátricos, que controlam a ansiedade e evitam o delírio, médicos e enfermeiros, de fato, não sabiam como lidar com um doente mental em surto, fora de controle. Por isso o metiam em camisas de força ou o punham numa cela com grades até que se acalmasse. Outro procedimento era o choque elétrico, que surtia o efeito imediato de interromper o surto esquizofrênico, mas com consequências imprevisíveis para sua integridade mental.Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos. Já os remédios neuroléticos não apresentam qualquer inconveniente e, aplicados na dosagem certa, possibilitam ao doente manter-se em estado normal. Graças a essa medicação, as clínicas psiquiátricas perderam o caráter carcerário para se tornarem semelhantes a clínicas de repouso. A maioria das clínicas psiquiátricas particulares de hoje tem salas de jogos, de cinema, teatro, piscina e campo de esportes. Já os hospitais públicos, até bem pouco, se não dispunham do mesmo conforto, também ofereciam ao internado divertimento e lazer, além de ateliês para pintar, desenhar ou ocupar-se com trabalhos manuais.Com os remédios à base de amplictil, como Haldol, o paciente não necessita de internações prolongadas. Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo.Pois bem, aquela campanha, que visava salvar os doentes de "repressão burguesa", resultou numa lei que praticamente acabou com os hospitais psiquiátricos, mantidos pelo governo. Em seu lugar, instituiu-se o tratamento ambulatorial (hospital-dia), que só resulta para os casos menos graves, enquanto os mais graves, que necessitam de internação, não têm quem os atenda. As famílias de posses continuam a por seus doentes em clínicas particulares, enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam nas ruas como mendigos, dormindo sob viadutos.É hora de revogar essa lei idiota que provocou tamanho desastre.
------Dr. Antônio Geraldo da Silva - Presidente da APBr, comenta o artigo:
Respeitado internacionalmente, o escritor, filósofo e poeta, Ferreira Gullar escreveu um artigo sobre a realidade brasileira na assistência aos doentes mentais e seus familiares. O texto, publicado pela Folha de São Paulo no dia 12 de abril, pode ser considerado um dos mais importantes já publicados desde a promulgação da lei 10.216.Talvez por ser um familiar e não um médico e/ou político, Gullar tenha se referido à lei 10.216 como sendo a Lei do Deputado Paulo Delgado. Fato que não procede.O Projeto de Lei do Deputado foi rejeitado no Senado com 23 votos contra e somente 04 a favor. Sendo assim, não existe nenhuma “lei Paulo Delgado”.O que existe é um mesmo grupo estar à frente da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde há mais de 20 anos, sendo que na última década o Coordenador é o irmão do citado deputado, que vêm conseguindo publicar portarias que burlam a Lei 10.216.A lei 10.216 é totalmente adequada às necessidades dos doentes mentais, seus familiares e dos profissionais comprometidos, mas está sendo distorcida em detrimento de uma proposta errada e rejeitada, que desde sua concepção estava fadada a levar nosso sistema público de assistência ao doente mental ao caos que estamos enfrentando hoje.Infelizmente dos 120 mil leitos públicos que existiam, hoje temos apenas cerca de 38 mil. Em compensação, os leitos privados aumentaram consideravelmente – chegando a mais do dobro do número anterior.Uma triste realidade. A desassistência à saúde mental reina no país.

lÍGIA, APENAS INTERPRETE


PROPOSTA LÍGIA L.


Vida De Cachorro

Os Mutantes

Vamos embora companheiro, vamos
Eles estão por fora do que eu sinto por você
Me dê sua pata peluda, vamos passear
Sentindo o cheiro da rua
Me lamba o rosto, meu querido, lamba
E diga que também você me ama
Eu quero ver seu rabo abanando
Vamos ficar sem coleira
Vamos ter cinco lindos cachorrinhos
Até que a morte nos separe, meu amor!
Composição: Rita Lee/Arnaldo D. Baptista/Sérgio Baptista 
Uauuu, Uauuu, Uauuu... Ahhh... 
Uauuu, Uauuu, Uauuu... Uhhh...


Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uau uau uau uau uau

Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uau uau uau uau uau

Troque seu cachorro por uma criança pobre (Baptuba, uap baptuba)
Sem parente, sem carinho, sem ramo, sem cobre (Baptuba, uap baptuba)
Deixe na história de sua vida uma notícia nobre

Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro por uma criança pobre

Tem muita gente por aí que está querendo levar uma vida de cão
Eu conheço um garotinho que queria ter nascido pastor-alemão
Esse é o rock de despedida pra minha cachorrinha chamada "sua-mãe"

É pra Sua-mãe (é pra Sua-mãe)
É pra Sua-mãe (é pra Sua-mãe)
É pra Sua-mãe (é pra Sua-mãe)
É pra Sua-mãe

Esse é o rock de despedida pra cachorra "Sua-mãe)

Seja mais humano, seja menos canino
Dê güarita pro cachorro, mas também dê pro menino
Se não um dia desse você vai amanhecer latindo, uau, uau, uau

Troque seu cachorro por uma criança pobre (Baptuba, uap baptuba)
Sem parente, sem carinho, sem ramo, sem cobre (Baptuba, uap baptuba)
Deixe na história de sua vida uma notícia nobre

Troque seu cachorro por uma criança pobre (Baptuba, uap baptuba)
Sem parente, sem carinho, sem ramo, sem cobre (Baptuba, uap baptuba)
Deixe na história de sua vida uma notícia nobre

Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uau uau uau uau uau

Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uau uau uau uau uau


proposta para Lígia L.


O que é um bom médico?

Todo hospital tem um Dr. Hodad. Mantenha distância

CRISTIANE SEGATTO
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CRISTIANE SEGATTO  Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 15 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo. Para falar com ela, o e-mail de contato é cristianes@edglobo. (Foto: ÉPOCA)
Em seu primeiro dia como residente da Universidade Harvard, o cirurgião americano Martin Makary ouviu uma frase que o marcaria para sempre.
“Esse paciente é do Hodad”, disse um dos residentes.
O jovem Makary, encantado por receber treinamento num dos centros médicos mais respeitados do mundo, mal podia esperar o momento de avistar o astro e, se tudo corresse bem, ser aceito como discípulo.
Mais tarde, envergonhado, confessou ao colega que nunca tinha ouvido falar no cirurgião Hodad. O amigo respondeu:
“Dr. Westchester é Hodad. É assim que nós, os residentes, o chamamos. H-O-D-A-D significa Hands of Death and Destruction (mãos de morte e destruição)”.
O médico era um perigo ambulante. O excesso de autoconfiança o levava a cometer sucessivos erros cirúrgicos. Hodad se achava bom em tudo. Arriscava-se e colocava os doentes ao risco ao realizar operações que não eram sua especialidade.
Os pacientes nem desconfiavam. Agradeciam pelo tratamento recebido e o recomendavam aos amigos. O jovem Makary não entendia como os pacientes podiam ter uma percepção tão equivocada de um cirurgião que, sob o julgamento técnico dos colegas, era ruim.
Conseguiu entender quando passou a acompanhar o médico mais velho nas visitas aos pacientes. Hodad era simpático, divertido, caloroso, bom de conversa. Os pacientes o adoravam. Até quando uma complicação ocorria, o que não era raro, Hodad era capaz de arranjar uma desculpa. Os doentes iam para casa convencidos de que ele não errara e felizes por terem estado em boas mãos.
Do ponto de vista técnico, Hodad era uma fraude. Do ponto de vista de popularidade, era um espetáculo.
No mesmo hospital, trabalhava outro cirurgião. Um grandalhão, de cara amarrada e péssimos modos. Grosseiro, na maior parte das vezes. Sempre pronto a humilhar as enfermeiras e outros funcionários.
Os alunos o chamavam de Raptor. Tinham medo dele. Os pacientes também. Raptor acumulava queixas de maus modos no departamento de atendimento ao cliente. Muitos pediam para ser operados por Hodad, o picareta com fama de excelente médico.
Os observadores bem informados ficavam intrigados com a ironia da situação. Apesar de seu comportamento terrível, Raptor tinha qualidade técnica muito acima da média. A incrível precisão cirúrgica e a insistência de se aproximar da perfeição a cada procedimento fizeram dele o cirurgião de melhor reputação entre os colegas. Até os que odiavam seus modos eram capazes de reconhecer sua superioridade técnica.
Ao longo da carreira, Makary viu chefes de Estado, celebridades, CEOs e outros poderosos caírem nas mãos de gente como Hodad, sem ter a menor ideia do risco que corriam. Viu também moradores de rua operados por brilhantes Raptors, sem desconfiar de que eles eram a elite da profissão.
Essa é uma história universal. Quase todo hospital tem um Hodad e um Raptor. E profissionais de todo tipo entre esses dois perfis extremos. No Brasil, é exatamente assim – sobretudo naqueles que são considerados os melhores hospitais.
Se até os poderosos estão sujeitos aos Hodads, como o cidadão comum pode saber se o profissional e o hospital escolhido é bom mesmo?
Podemos escolher hotéis e restaurantes a partir de critérios técnicos, mas somos impedidos de comparar as diferentes instituições de saúde a partir de parâmetros objetivos.
Qual é o índice de infecção do hospital A? E as taxas de complicação do B? Qual é a sobrevida de quem faz uma cirurgia cardíaca ou um transplante aqui ou ali? Esses dados existem. Pelo menos no grupo de 21 hospitais brasileiros que dispõem de um selo de qualidade emitido por uma entidade chamada Joint Commission International.
Por enquanto, porém, essas informações são guardadas a sete chaves. Ainda que um hospital divulgue um ou outro parâmetro (em geral, o que lhe é favorável), não podemos comparar as diferentes instituições.
Makary defende a divulgação desses dados. E acha que, mais cedo ou mais tarde, ela vai acontecer. Por exigência da sociedade. Hoje o americano é um cirurgião reconhecido e comentarista de redes de TV americana como CNN e Fox News.
Ele defende essa ideia no livro Unaccountable: What Hospitals Won’t Tell You and How Transparency Can Revolutionize Health Care (em português, Sem prestar contas: o que os hospitais não contam e como a transparência pode revolucionar o atendimento à saúde). A obra recém-lançada nos Estados Unidos ainda não tem editora no Brasil.  
“Muitos médicos estão tão frustrados com as perversidades do sistema de saúde quanto os pacientes. Um estudo recente demonstrou que 47% dos médicos americanos sofrem de síndrome de burnout (stress crônico provocado pelas condições de trabalho)”, disse Makary a ÉPOCA. “Acho que meu livro se conecta com essas frustrações."
Na complexa e controversa área da saúde, o livro de Makary é um dos melhores que li recentemente. Uma discussão que faz todo sentido no Brasil. Nos últimos dez anos, a parcela de beneficiários de planos de saúde cresceu 50% no país. Hoje somos 47 milhões.
Nas grandes capitais, as obras de expansão dos hospitais estão por todo lado. Ainda assim, as novas alas são insuficientes para atender tanta gente. Há filas de quatro horas nos pronto-socorros e reclamações constantes. Nesse cenário, a qualidade fica comprometida.
Saber qual hospital zela por ela e qual investe apenas em aparência deveria ser um direito do cidadão. Divido com vocês algumas das observações de Makary:
Operar o paciente errado ou um membro errado é o tipo de coisa que nunca deveria acontecer. Ainda assim, descobrimos que ocorrem 80 erros desse tipo toda semana apenas nos Estados Unidos. Mesmo nos melhores hospitais.
O médico que atende as celebridades não é, necessariamente, melhor que os outros. Alguns se tornam famosos porque executam bem algum tipo de procedimento. São bons em alguma coisa específica. Isso não significa que eles sejam bons em tudo. Um médico pode ter muita experiência em cirurgia cardíaca, mas ele não será a melhor opção se o paciente precisar de uma cirurgia de abdome.
Muitos médicos constroem uma reputação, ficam famosos e depois não se atualizam. É péssimo para o paciente. A melhor forma de escolher um médico é se informar sobre a doença e buscar uma segunda opinião.
Há um movimento para tornar a medicina mais transparente. Sou otimista. Chegará o dia em que os hospitais terão de prestar contas sobre seus resultados (taxa de infecção hospitalar, erros de medicação, complicações etc), do mesmo jeito que prestam contas sobre suas finanças.
Segundo Makary, a nova geração de estudantes pensa diferente da velha guarda da medicina. Insistem em saber, com objetividade, o que de fato ocorre atrás das portas fechadas. Que a informação e o anseio por transparência contamine toda a sociedade. É questão de vida ou morte.
(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras)


DA VOCAÇÃO DE SER MÉDICO
 
                                     Sérgio Martins Pandolfo*


    “Sirva à Medicina por verdadeiro amor a ela e aos doentes. Então, vocacionado, creia na Medicina. Ela é maravilhosa nos seus propósitos e grande nas suas possibilidades. Não há arte que a sobre-exceda. É divina, vem dos céus. F.F.”

     Esta vinheta - encimada com a assinatura de um ilustre colega que já se foi -, à feição de ex-líbris aposta em um compêndio de cirurgia pertencente a esse pranteado seguidor da doutrina de Esculápio, com o qual depois me presenteou resume, à inteireza, tudo o que penso sobre a sublime arte de curar, conquanto desconheça a autoria de tão belo quanto veraz pensamento.
     Nenhuma mais humana na prática do dia a dia. Nenhuma mais divina na obtenção da cura.
     Ser médico é de fato privilégio que a poucos contempla. Que outra ciência ou arte defere aos que a praticam a primazia de exercê-la sobre a matéria nobre, o corpo humano, animado pelo sopro divinal da vida?
     Tem sido assim desde o princípio. Por isso que só os realmente vocacionados para esse assim nobilitante quanto afanoso mister podem aperceber-se, de todo, da grandeza de seu exercício.
     Mais de vinte e quatro séculos são passados desde que Hipócrates fez ditar as regras deontológicas que norteiam a profissão médica e, no entanto, ainda se nos afiguram imperecíveis. O Juramento que nos impôs segue prevalecendo em todos os seus termos imperativos, garantindo a nobreza e dignidade de nosso ofício. E é ainda o pai da Medicina quem nos predica: “Breve é a vida e longa é a arte; a ocasião é fugaz; a experiência é enganosa, o julgamento é difícil”. Todas as facetas e falsetas da Medicina estão aí contempladas.
     O exercício da Medicina impõe, necessariamente, aos que a professam, dedicação, fidelidade, correção, retidão de caráter. Já o Código de Hamurabi - notável governante da Babilônia - circa 2000 antes de Cristo estabelecia a responsabilidade dos médicos frente a seus pacientes.
     Com o crescimento ciclópico da ciência, notadamente nas áreas da biologia, da bioquímica, da metodologia diagnóstica e das disponibilidades terapêuticas, mais e mais se faz indispensável essa entrega livre, espontânea, estreme, do médico à sua profissão, visando a um único objetivo: o bem-estar, a saúde do seu semelhante, da coletividade a que pertence.
     A dedicação à sua ciência e à sua arte, já o dissemos alhures e aqui o reforçamos, deve ser total, deliberada, e a educação continuada, a atualização permanente, a chama revivificadora desse envolvimento, a fim de que o benefício ao paciente seja o mais completo e universal possível. Esses os elementos basilares de tão enobrecedor quanto imprescindível apostolado profissional.
     Nesses mais de quatro décadas e meia de abnegado e permanente idílio com a “doce Senhora” (a Medicina) pude bem aquilatar o quanto é ela exigente, impositiva, exclusivista, tirana às vezes, de tal sorte que, se não a amarmos deveras, logo virá, inexorável e frustrante, a desilusão – como nas uniões inverdadeiras!-, que culminará, mais cedo ou mais tarde, com traumática ruptura.
     Esse o cariz primordial que faz da Medicina uma profissão diferente, superior!

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(*) Médico e Escritor. ABRAMES/SOBRAMES
serpan@amazon.com.br - sergio.serpan@gmail.com
www.sergiopandolfo.com
Sérgio Pandolfo
Enviado por Sérgio Pandolfo em 08/01/2010
Reeditado em 26/10/2012
Código do texto: T2018030 


PROPOSTA LÍGIA L.





Era imensa a expectativa dos consumidores com o lançamento no Brasil dos e-readers – aparelhos para leitura de livros digitais – Kobo Touch, pela Livraria Cultura, no começo de dezembro, e Kindle, da Amazon, poucos dias depois. A concorrência entre grandes livrarias prometia acirrar a disputa, aquecer o mercado e derrubar preços.
Quase um mês mais tarde, não foi o que ocorreu. Por enquanto, os leitores estão sendo mais atraídos pela novidade do produto do que pela economia que pode proporcionar.
É o caso da professora de inglês Juliane Garcia, 28 anos, que se reúne uma vez por mês com seus alunos em um clube de leitura, onde a regra é ler na plataforma digital.
– Às vezes, é complicado achar obras impressas em inglês. Com um e-reader eu acho qualquer exemplar, de maneira quase instantânea – comenta.
Juliane também encontra outras facilidades:
– Posso levar um monte de livros para a praia sem ocupar espaço na mala. Nem sinto falta do cheirinho do papel.
O preço não tão atrativo de um livro digital – além do custo do próprio e-reader – é apontado como um dos motivos para a opção eletrônica não deslanchar no país.
Se depender da situação atual do mercado, vai demorar para que ocorra uma mudança. Levantamento feito por ZH mostra que, para comprar oito dos 10 títulos de ficção mais vendidos do país na versão para o Kindle, o brasileiro economizaria apenas 0,42% em comparação ao que gastaria com livros de papel. Nos Estados Unidos, a economia seria de 44,4%.
A pesquisa foi realizada verificando o custo dos livros digitais em duas grandes redes de livrarias e o valor das edições em papel divulgados em sites de comparação de preços. Quando a cotação é feita com o Kobo, da Livraria Cultura, o resultado é ainda pior: o livro digital vendido pela rede é 10,6% mais caro do que o livro de papel.
No caso dos leitores digitais, os e-readers, a constatação é a mesma: o leitor brasileiro paga bem mais caro pelo mesmo produto. O Kindle custa R$ 299 no Brasil, mais do que o dobro que os americanos pagam: US$ 69 (cerca de R$ 140), em média.
Economia bem menor no Brasil
O Kobo custa por aqui R$ 399 ante US$ 149 (cerca de R$ 300) nos Estados Unidos. Assim, basta um leitor americano comprar os seis primeiros livros da lista de mais vendidos para o investimento no equipamento valer a pena. A partir do sétimo livro, já está economizando. No Brasil, o cálculo semelhante aponta uma economia bem menor. Seria preciso ler 369 obras para a compra do e-reader valer a pena.
Mesmo alheia a esses cálculos, Juliane percebeu na prática que os títulos nacionais não são muito baratos.
O preço alto no Brasil é pressionado em grande parte pelas editoras, responsáveis por estipular o valor de capa no país. Nos Estados Unidos, a redução do preço veio graças à força de um outro personagem na história: o escritor, que, em certos casos, pode negociar a exposição de sua obra diretamente com as livrarias virtuais.
– O mercado americano é muito mais maduro que o nosso. Lá essa negociação direta empurrou o preço do livro para baixo, obrigando as editoras a fazerem o mesmo – explica Ednei Procópio, integrante da Comissão do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro e dono da editora Livrus.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Textos de Eliane Brum são bem valorizados hoje em dia

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/12/o-silencio-nao-existe.html

pedofilia


edofilia: excelente análise da Revista Ciência Hoje

Imposição de um desejo único

O que é a pedofilia? Doença? Falha de caráter? Crime? Qual o perfil do pedófilo? Como se faz o diagnóstico? É possível curá-la? O que a ciência tem a dizer sobre isso? O artigo de capa da CH 275 discute esse tema que mobiliza cada vez mais a sociedade.
Por: Fred Furtado
Publicado em 20/10/2010 | Atualizado em 20/10/2010
Imposição de um desejo único
Psiquiatras, psicanalistas, antropólogos, teóricos da comunicação e ativistas políticos ouvidos por nossa reportagem concordam em um ponto: é preciso avaliar e debater o problema da pedofilia para entendê-lo melhor (ilustração: Há Fael).
Nas últimas décadas, a atração sexual patológica por crianças e pré-adolescentes ganhou nome e deixou de ser um assunto reservado das famílias para se tornar um problema social e político que afeta desde questões médicas até criminais.
Chamada pedofilia, um tipo de perversão sexual para a psicanálise e psiquiatria, essa doença passou a representar muito mais que uma condição médica e hoje é um termo que abrange várias manifestações de violência e polui a discussão sobre o tema pela forte carga emocional que o cerca.
A quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM IV-TR, na sigla em inglês), publicação da Associação Americana de Psiquiatria (APA), define a pedofilia como uma parafilia, um tipo de transtorno em que o prazer sexual não é obtido com a cópula, mas por meio de outra atividade ou objeto de desejo sexual.
O termo ‘pedofilia’ abrange várias manifestações de violência e polui a discussão sobre o tema pela forte carga emocional que o cerca
Mais especificamente, ela se caracteriza por interesse sexual por crianças pré-púberes (13 anos ou menos) da parte de indivíduos com 16 anos ou mais ou que sejam pelo menos cinco anos mais velhos, sendo que esse desejo se manifesta por um período mínimo de seis meses. O diagnóstico poderia ser feito se o interesse foi levado a cabo ou se causou acentuado sofrimento ou dificuldades pessoais.
O psiquiatra e psicanalista Luís Alberto Helsinger, coordenador do curso de Teoria e Clínica da Perversão da Sociedade Brasileira de Psicanálise, é critico do DSM. “Os norte-americanos são muito bons para parametrizar e sistematizar as coisas, mas isso nem sempre funciona”, observa. Ele explica a pedofilia sob o ângulo da psicanálise.
“O que faz desse problema uma patologia é o fato de o indivíduo só atingir o gozo, o prazer sexual única e exclusivamente por meio do objeto escolhido, o fetiche. Esse é um dado importante: aquele que sofre de perversão sexual não consegue realizar seu desejo de outra maneira que não seja com seu fetiche”, reitera Helsinger, acrescentando que esse objeto pode ser qualquer coisa, por exemplo, uma bota, um olhar ou uma criança, como no caso da pedofilia.
A definição é importante, pois nem todo caso de violência sexual contra crianças se enquadra na pedofilia. “Um pai que chega bêbado em casa e estupra a própria filha não é um pedófilo se ele consegue ter relações sexuais e obter prazer com mulheres adultas”, explica o psicanalista.
Na mesma linha, alguém que produza material pornográfico contendo crianças não necessariamente sofre de uma perversão, embora possa estar alimentando um público com a doença. Contudo, todos esses exemplos – o pai, o produtor e os clientes – hoje são criminosos perante a lei.
 

Perfil de um escravo

Mas o que faz alguém se tornar um pedófilo? Seria possível nascer com essa doença? Helsinger afirma que não. A pedofilia seria um problema de cunho psicológico originário de um trauma ou de pressões culturais que levam a pessoa a procurar uma forma de gozo exclusivamente focada em crianças. 
“Alguém que sofreu abusos na infância pode querer, como disse [o médico austríaco Sigmund] Freud [1856-1939], repetir ativamente o que sofreu passivamente. A pedofilia pode surgir também em ambientes supererotizados onde há um estado ambíguo de lei e ausência de lei, como em famílias nas quais há muitos irmãos de pais diferentes”, esclarece o psicanalista.
“Embora se sintam senhores da situação, os pedófilos são escravos de um único desejo. Pior: são escravos que se creem livres”
Ele também informa que, apesar de existirem mulheres que sofrem de pedofilia, o número esmagador de casos é de homens. “As mulheres tendem a usar os bebês e os filhos como bons fetiches, alvos de ternura e amor”, comenta.
Os pedófilos também estão longe de ser um grupo homogêneo, já que apresentam interesses por crianças de idades distintas. Segundo Helsinger, aqueles que procuram as mais jovens, as veem como objetos fracos e totalmente dominados, sobre os quais podem exercer seu poder.
Já os que se interessam pelas mais velhas procuram um ritual de abuso ligado à sedução. “Embora se sintam senhores da situação, a verdade é que os pedófilos, bem como os outros indivíduos com perversões, devido a seu gozo específico, são escravos de um único desejo. Pior: são escravos que se creem livres”, afirma.
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