Sou professora comum, mas, tenho talento para isso. É certo que, na juventude, não era professora e nem imaginava que viesse a ser; e que fosse assumir isso com tanto rigor. E paixão. ( E pensando melhor, ate que eu era jovem , 29 anos é ser jovem).
Justo porque não me sentia professora, dei um jeito de inventar ser a melhor professora. Delírios também valem.
E, com o tempo, fui desenvolvendo métodos, adaptados a cada um. Educar sempre foi buscar individualidades. Postei-me, à margem do sistema educativo , justo pra viabilizar minha crença: não, à massificação.
Criei uma sala de aula e não, necessariamente, introjetei na minha técnica o propósito de ser amiga do aluno. Mas sempre foi assim ( e neste fim de ano recebi mensagens, declarando amizade eterna). Pois, justo nesta relação de amizade é que desperto a cumplicidade e a adesão do jovem para um projeto de alçada: tirar de si um texto que conserve características individuais; mas que também se atenha à técnica de escrita; e, ao rigor do pensamento científico.
Neste ano, investi em leituras e, no ato de instigar o pessoal para o desafio de posicionar-se sobre todas as coisas. E nunca, pressionando-os a seguirem a minha ideia.
A primeira aula não cobro, porque é esse o descompromisso de conhecer a quem vou ensinar. Não sou professora de dar macetes, meu método é escrever e escrever. Creio que correção a quatro mãos é a melhor maneira de organizar um texto.
Trabalho muitas horas, todo dia. Já acordo pensando nas aulas. Não cobro caro; porque trabalho com alunos que já pagam cursinho, uns , a pensão pra viver em São Paulo. Sei que alguns até poderiam pagar mais , porém tento ser justa e não modular preço. E, quando vejo que o aluno precisa de mais aulas e não pode pagar, faço correções extras, gravo aulas. Isso quer dizer que a aula não termina na sala de aula. Eu me faço presente na vida desses jovens.
O facebook tem sido ferramenta excelente. Vem a noite e leio mensagens, respondo às demandas, questões, abraço tudo que for preciso.
Fim de ano, organizei grupos para reforçar matérias que eu não costumo lecionar, mas que sei serem necessárias. Nem coloco preço nisso. Dou estas aulas extras como quem dá da água que é sua.
Porém, ocorreu que, com o resultado da Fuvest e antes, o da Unesp, fiquei chateada. Muita gente boa não passou .Uns ficaram pra trás ,ou melhor, pra outra luta em outro ano , ou ainda este, noutras faculdades. Ajudei-os a curar das dores. Mas vai nisso a certeza que de não tenho responsabilidade nos maus resultados. Não ensino física; ou matemática. E, na primeira fase, isso conta . Sou só a professora de redação!
Mas a minha tristeza cresceu, virou angústia meio insuportável e foi isso que me fez cancelar aulas nas duas últimas semanas. Cancelo aula, sim, quando é necessário, ou melhor, porque sei que minha aula precisa ser uma catarse. E , quando não estou com energia que provoque tal coisa, cancelo mesmo, mas proponho reposições. Tenho a meta de fazer umas dez aulas em uma. Sei que isso é exagerado, mas, tenho ciência de que uma aula potente apressa no aluno a urgência de estudar mais e, escrever.
Creio que muitos sabem disso e entendem. Hoje tive de cancelar a aula de Gabriela que ia pro interior e lhe disse: ''continuemos pelo Skype''. Aceitou. Creio na aula a distância; ela dá certo e mais , quando o aluno já é meu conhecido.
Ontem fui a um médico buscar ajuda. E ontem dei aula sentindo angústia pesada. As aulas foram intensas, mas foram penosas. Eu me angustiava acima do aceitável.
Hoje pedi a um rapaz que suspendesse a aula ( ontem eu havia confirmado! Sei que é chato!) e provoquei nele uma ira gigante - está afoito demais, o que é natural, pois passou em medicina. Pedi compreensão , não recebi: agiu assim de modo cruel. E eu desconfio de que falhei, pois, não suportando a bronca, eliminei-o das aulas, mas, só depois de ter sido informada de que ele já pensava em tomar providências e buscar - depois de conversar com a mãe - outro professor.
Ele deixou a ameaça no ar ...E não sou de ficar no ar. Se ele sai, perco a chance de ajudá-lo porque sei que o método que vinha usando dava resultado.
E, justo que agora eu ia entrar com os textos mais pesados! E, com as leituras ( resumos que eu faria) de teóricos mais complexos os quais a Fuvest solicita.
E o que vou fazer?Descanso até o dia 25 e, depois, retorno, feito a professora cheia de energia de sempre; a que torce e dá tanto de sua energia que não lhe sobra nada para qualquer outra situação de vida. ( não me queixo só assinalo).
Não reclamo deste meu ofício. Ontem meu médico esotérico analisou que talvez eu fosse uma missionária, porque tanta dedicação e tanta energia só podem ser coisas do mundo de além.
Não creio nisso, escolho outra explicação. Escolho, em vez da missão, a força da natureza. Dou aula com a força com que as flores nascem, ou com que cai a chuva. A aula acontece. Eu me entrego feito faz um ator em cena, ou a faxineira, levando do chão o pó, com sua vassoura milenar.
- Lamento, moço, o que houve. Eu não aceito tratamento autoritário. E só não me preocupo com você ; porque não quero me achar infalível nem magnânima. Meu trabalho é modesto , escondido numa pequena sala de aula. Não faço alarde ou clarinada. Apenas me deixo ser. Você ainda tem uns dez dias; e poderá encontrar mestres excepcionais.
E depois do natal eu volto, seja como a missionária, seja feito a jabuticabeira que se derruba à força de sua natureza.
FelizNatal a todos e a você que será um médico e precisará aprender que às vezes um ser humano precisa descansar.
Tem mais: não sou irresponsável. Meço exato como me curar para melhor servir.
http://www.youtube.com/watch?v=OiUa2L3Axbc
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